Lua do Silêncio

Ou lua vazia, ou lua negra. É a lua de todas as possibilidades, de todos os inícios e de todos os fins.



Frustração é uma palavra que atravessa o dia-a-dia de cada pessoa, não só na dança, mas na sua vida e no seu trabalho pessoal para que a sua essência se consiga expressar. O desafio é conseguir transformar o sentimento de derrota, numa faísca de aprendizagem, foco e atenção.


Dias intensos de trabalho e prática, em que o cérebro não consegue acompanhar o ritmo do corpo, mas a adrenalina está pulsante, não há uma paragem porque dentro também não existe a palavra desistir.

Hoje aprendi o quanto é valioso abrir mão destas crenças sobre nós mesmas, do nosso sentir, do nosso enclausuramento na dor, da dor em sim.

A dor por si só corroi profundamente, a frustração alimentada é uma bomba relógio que vai implodindo, cada vez mais forte e intensamente, se não permitimos que ela atravesse, se não lhe damos espaço a que ela se expresse, não aprendemos.

Estar na dor é uma busca interna de sair dela, de sair do esforço, do limite, da auto-flagelação e até da auto-sabotagem. A aprendizagem é dura, porque não está só no saber fazer e reproduzir o que vemos, está em nos deixarmos penetrar pelos sentimentos que aquele movimento, dança, ritual, sabor, situação, conflito, nos trazem, levá-los até ao nosso coração e permitir-lhe uma alquimia que se expressa em acção e em poder. É este o poder que vem de dentro, e não é o poder da capacidade, é o poder do ser, da presença.

Cada momento é uma travessia, mesmo que possa parecer o fim do mundo, ou uma morte, se reflectirmos sobre o caminho que nos trouxe até aqui,quantos fins do mundo e quantas mortes passamos? E o que fez isso de nós?

Gosto de questionar e deixar suspensas as questões, porque como em tudo na vida, não há respostas definitivas e sem vida. Não somos sempre as mesmas pessoas, principalmente quando nos permitimos dar o corpo e a alma à alquimia da transformação.



 A Terra é uma das manifestações mais primitivas do sagrado, dela tudo vem e a ela tudo retorna. Nos dias que correm o que é primitivo é selvagem, é fora de moda, sujo, horrível e intocável, tudo para introduzir e dar lugar ao que é moderno, clean e belo, principalmente apenas na aparência.
Trazemos nos nossos genes estas contradições impressas como forma de garantir a longevidade e sobrevivência deste tipo sociedade, cultura e economia “modernas”, prosperando em pequenos gigantes monopólios que controlam e manipulam tudo o que vemos, tudo o que sentimos, tudo o que comemos. O primitivo, esse monstro do início dos tempos, é explorado até aos seus últimos recursos e colocado na gaveta da fonte de doenças e todos os outros males da humanidade porque na verdade o que eram bom era vivermos todos do e no ar, já agora com máscaras.
Nós e as nossas crianças crescem a ouvir: “Pára de mexer na Terra, vais ficar todo sujo, que mau aspecto!”, “ Não podes brincar lá fora senão ficas doente!”, “comer Terra, que nojo!”, and so on… Qualquer semelhança com o que é dito às crianças para não tocar nos seus genitais ou às adolescentes que menstruam pela primeira vez, é pura “coincidência”.
Mas que semelhanças são estas afinal, entre a forma como tratamos a Terra e a forma como orientamos o crescimento das nossas crianças, ou como tratamos o nosso corpo ou o nosso sangue?
Metrópoles e metrópoles, belas cidades com boas camadas de cimento e betão, e lá bem para o fundo, onde ninguém a vê, onde ninguém lhe toca, onde ninguém a cheira, onde ninguém a sente, a Terra… Uma mulher linda, cheia de maquilhagem recebe elogios maravilhosos, e por baixo do anti-olheiras, da base, do blush, da sombra, da máscara, do baton…um rosto cansado e triste responde: “sim, é o disfarce de uma mulher esgotada que tenta dizer a si mesma que afinal há algo de belo em sim, mesmo que seja artificial”. Claro que os elogios ficam sem reacção… E na verdade, esta seria a resposta da Terra se lhe dessemos voz.
Se Ela tivesse voz ela gritaria, gemeria, se ela tivesse água ela choraria em pranto. Mas será que ela sofre em silêncio? Será que ela sofre em silêncio como as Mães vitimas de violência obstétrica nos seus partos, quando são sedadas, cortadas ou mutiladas sem razão, sem autorização ou só “porque tem de ser”. Será que há semelhança entre um parto provocado ou uma cesariana porque o médico tem férias marcadas para a data prevista ou porque está quase a terminar o turno e a agricultura de adubos e pesticidas químicos que desrespeitam a ciclicidade das colheitas?
Será também uma infeliz coincidência a relação dos idosos abandonados a morrerem sozinhos porque não servem para nada e os bosques de árvores centenárias desbastados em prol de belos resorts ou indústrias?
Desenganem-se aqueles que acham que a Terra não sente, que a Terra não chora, que a Terra não grita. Ela é tão sagrada como o nosso Corpo e o nosso Corpo é tão sagrado como Ela.
Muitas religiões quiseram fazer-nos acreditar que vivemos aqui num inferno, que temos de o aguentar o melhor que podemos, segundo as regras que nos impõe para alcançar o “reino dos céus”, o paraíso, seja lá o que e onde for, na pior das hipóteses até somos simples parasitas que aqui andam a pairar à espera da morte. Wake-up call, chamado da Terra: o tempo é aqui e agora, se há algo a fazer é no presente, nesta vida, começando por aprender a conviver com o que de melhor e pior temos em nós, se é que se pode separar e julgar, uma vez que a união de cada aspecto dá uma só pessoa e a união de cada um e cada aspecto de tudo que nos rodeia dá uma só unidade, um só corpo. E isto dá a noção algo muito maior que nós mesmos, mas do qual somos células activas, vivas.
A mais profunda lição que a Terra nos dá é a ciclicidade. Sim, essa mesma ciclicidade que vemos na Mulher. E não, não são as hormonas… São ciclos naturais que retiram o véu do que precisa mudar, do que precisa partir. Mas é muito mais simples culpar as hormonas e desculpar-se com uma alteração de personalidade naquela fase do mês “Eu não estava fora de mim, não era eu!”. As dores, a irritabilidade, os conflitos são um alerta que vai sendo coberto com véus e mais véus ao longo dos anos, até um dia explodir. Uma Mulher que discute com o chefe ou com o companheiro na pré-menstruação, desculpar-se-á mais tarde que era a SPM, que não estava bem, mas por em causa a sua relação ou o seu trabalho está fora de questão. Claro que uma qualquer pílula controla estes monstrinhos a que chamam hormonas e a ciclicidade “provocada” pela capacidade de gerar vida, porque é bastante óbvio que é muito melhor ter um cancro. Não se vê logo que o melhor é até nem se ter menstruação, porque é contra-natura, selvagem e primitivo sangrar por livre e espontânea vontade, dando liberdade ao nosso Corpo de escolher fazê-lo e renovar-se ciclicamente? Acaba-se o incómodo e a imundice daquele sangue que suja a roupa, as mãos e que escorre pelas pernas no banho. Retira-se a fertilidade às mulheres, como se abafa a Terra et voilá, problema resolvido, mulheres mais calmas e uma sociedade mais agradável às vistas.
Ser-se Humano é mesmo isto? Que Humanidade é esta? Em que Mulheres e Homens nos tornamos? Mulheres cada vez mais masculinas para vencer a luta entre géneros, homens cada vez mais competitivos, cépticos e distantespara defenderem a sua masculinidadee manterem a sua reputação de machos, porque “Ser vencido por uma menina, que vergonha!”. Pois que a uma altura das suas vidas chega uma doença, uma desgraça, uma tristeza e profunda solidão como resultado do isolamento do mundo e de si mesmos em prol da ilusão do vencer na vida.
Homens e Mulheres, Corpos Humanos e Sagrados como a Terra que pulsa debaixo dos nossos pés e nas nossas entranhas. Escutar-se, respeitar-se, cuidar-se é escutar, respeitar e cuidar a Terra, essa Mãe sem idade que nos acolhe no seu abraço, sem julgamentos.
A Mãe-Terra pode recuperar o seu poder pouco a pouco, se nós recuperarmos o nosso. E não é o exercício de poder sobre os outros, é a busca do poder proveniente da partícula mais profunda do nosso ser. Encontrar este poder implica muitas travessias aos nossos submundos, às cavernas que ficaram esquecidas, onde escondemos padrões construídos ou herdados e dos quais não queremos abrir mão, porque fazem parte de nós. Pois, esta viagem implica abrir mão do que somos, do que queremos ser ou do que fomos, pelo vazio, pelo nada. E a aprendizagem nunca trará nenhum resultado final, até porque não há fim. O tesouro não está escondido em lado nenhum, senão no caminho que fazemos.
Sim, dá trabalho, muito trabalho. Há momentos em que dá vontade de desistir? Sim! É um work-in-progress de uma vida, ou várias. Muitos estarão contra nós, achar-nos-ão aves raras e chamar-nos-ão nomes bem mais estranhos e absurdos. Num outro lado de cada travessia, porém, estará sempre alguém que nos abraça, que nos dá a mão, que está presente mesmo sem palavras. Alguém que nunca esteve onde nós estivemos ou estamos (porque cada caminho é singular), mas que está presente, fazendo também a sua travessia.
Se cada um der a sua mão a outras que estejam ao seu lado, cada um na sua travessia, todos numa busca comum, por um bem comum, defendendo a Mãe-Terra que nos chama a retornar à sua sacralidade, onde a honramos com Amor, “Together we will cross the river”.




Ilda Baeza

19/10/2013

A minha respiração é a tua, o meu corpo é o teu, o mundo deixou de existir em nós...

O mundo pode acabar neste momento, acabaremos sendo um...
Não há diferença, nem barreiras entre a nossa pele, somos verdadeiramente um só corpo.
Os nossos olhos despem-nos de tudo
E o tudo acontece no nada
Um momento tão simples, um abraço interminável
Onde te beijo, onde te amo em matéria, sem matéria
Porque tudo está manifesto nos nossos corpos sem que eles quase se movam...
Desejo-te, tanto, tanto, tanto
Só aqui, só assim, neste momento incapaz de se repetir,
Sem expectativa, sem futuro, só presente
E porque é presente posso estendê-lo mais um pouco
Só mais um pouco, só mais um minuto e outro...
Os teus olhos estão em mim, estás em mim, profundamente...


Nestes dias o meu coração recorda-te.

Sábio ancião da vida e da morte!

Uma música que me leva a viajar, que me dá vontade de chorar, de gritar, de uivar, que acorda uma força inexplicável dentro de mim.
 
Cada palavra doi neste corpo vulnerável, frágil, mas aberto e rendido, porque o Amor é muito mais que aquilo que vemos e sentimos, é muito muito mais que a relação entre dois seres, ele transcende-nos, é uma das forças da dança do Universo, que o faz mover, que o transforma, que nos transforma! Porque somos Um nesta Teia.
 
 
 
 
 
Is it getting better?
Or do you feel the same?
Will it make it easier on you now?
You got someone to blame
You say one love, one life
It's one need in the night
One love, we get to share it
Leaves you, darling, if you don't care for it.
Did I disappoint you?
Or leave a bad taste in your mouth?
You act like you never had love
And you want me to go without
Well, it's too late, tonight,
To drag the past out into the light
We're one, but we're not the same
We get to carry each other, carry each other
One
Have you come here for forgiveness?
Have you come to raise the dead?
Have you come here to play Jesus
to the lepers in your head?
Did I ask too much, more than a lot?
You gave me nothing, now it's all I got
We're one, but we're not the same.
Well, we hurt each other, then we do it again.
You say:
Love is a temple, love a higher law
Love is a temple, love the higher law
You ask me to enter, but then you make me crawl
And I can't keep holding on to what you got
When all you got is hurt.
One love, one blood
One life you got to do what you should.
One life with each other: sisters, brothers.
One life, but we're not the same.
We get to carry each other, carry each other.
One! One!
 



Revolta, como a água em tempestade. Pelas gotículas que se julgam um oceano, capazes de o extinguir, pelas ondas que se julgam o poder único, capazes de fazer prostrar todo o oceano perante si, pelos pântanos que julgam ser verdadeiras nascentes, mas não se permitem fluir... revolta pelo julgamento do que parecendo ser, deixa de o ser.

Surge uma descrença no Amor...na verdade não é no Amor, mas sim na capacidade de Amar, no ser humano que se rende ao Amor.

Tudo surge de forma tão superficial que a humanidade parece adormecida e alienada, caminhando na superfície, recheado de medo de se atirar, de mergulhar...

Porque é que o Amor se tornou tão fútil, tão fugaz, como uma compra de supermercado? Seremos nós humanos, carne de talho que se exibe para ser levada para casa em troca de umas horas de prazer?

Até os animais e as plantas têm maior sensibilidade... 

O ser humano parece rocha impenetrável, constante, imóvel, que não se permite ir, deixando-se simplesmente desgastar no seu peso de permanecer num mesmo ponto atingido pela intempérie e pelo tempo...


Revolta, sim...Revolta e tristeza... Esta é hoje a voz do meu silêncio ...


She's reclaiming her dark feminine as she heals the split.
This word has been used to scare her away from the fullness of her essence for a long time.
She was indoctrinated into a belief that only light is pure, and the dark is evil. And th...us was she separated from her power.
She was allowed to live and experience only the 'good' girl, and a very large part of her existence became unsanctioned.
She got divided between good & bad, which meant acceptance & rejection of her.
Her raw, mystical, wild, shamanic self was banished into the underground, to be perhaps visited in dreams.
Her dark is nothing but her denied feminine.
It is primal, NOT evil.
As her fear is disappearing, she's refusing to live in guilt anymore.
She's untangling from shame, the single most powerful weapon of the patriarchy to chain her.
Her frequent journeys underground have revealed to her the immense power of the dark. She's discovering she was never evil.
It was just that she would have been too dangerous for the patriarchy.
She's reclaiming her wildness fully and unabashedly now.
She knows that the dark is where things take birth. Deep in the earth's womb is where the seed germinates, deep in her dark womb is where life begins to form.
A connection to the dark brings her face to face to her mystical connection with life, death and rebirth.
She accessing the power of blood mysteries.
She's travelling to the center of the universe, the black light of the cosmic womb, her most nourishing place right now.
She's reclaiming Kali, Lilith, Baba Yaga in her.
In her embrace of her dark feminine, she's healing the split of spirit from matter, heaven from earth, sacred from profane, human from divine, light from dark.
She's sacred.
And it has no opposite.
 
Sukhvinder Sircar


 Never underestimate a woman who is suffering
who seems to be making risky choices.
She is deep in lesson.
She is visiting the underground,
she is making sense of life in some invisible way
... the fragmentation in her life could be a precursor
to a new resurgence.
She could well stun you with some home truths.
 
Sukhvinder Sircar

Aprendi que na vida só somos se formos inteiros e verdadeiros. Quando queremos avançar, avançamos com tudo o que temos: entusiasmo, alegria, medo, tristeza, dúvida. Quando não queremos avançar, assumimos a nossa vontade.

Vivemos lado a lado com a morte e com o vazio todos os dias, a toda a hora, a cada segundo, no entanto estamos vivos, vibrantes de energia, em nós corre o sangue que nos permite mover.
Como mulher, tenho um útero que morre e renasce todos os meses, é assim que me assumo à vida - cíclica.
É assim que me assumo a mim mesma e aos outros.

Se esta intensidade é incomodativa, pois que tem como propósito afastar e/ou atrair quem me acompanhe.
Sim, sou exigente, mas não me imponho a nada, nem a ninguém, não peço atenção, não quero aquilo que não me podem dar.
Basto-me a mim mesma, sou livre, solitária e independente. Não são conquistas, nem lutas ganhas, é um assumir de mim mesma e dos meus recursos.
O Amor e a Amizade daqueles que me envolvem são plantas que tornam este jardim mais agradável e mais bonito. Todos eles lá têm raízes, para nutrir e serem nutridos.

A todos que dele fazem parte, têm todo o meu Amor e toda a minha Gratidão.

Às ervas daninhas que lá habitam, também têm o meu Amor e a minha Gratidão porque apesar de perecerem rapidamente também me trazem importantes lições de vida.



Quando uma mulher se sente insegura, perdida, se questiona sobre o seu lugar, ouvem-se os seus cascos pela terra. Quando a mulher sente uma dor que não consegue curar, ouve-se o seu relinchar.
Raras dizem tê-la visto na encruzilhada... Porém muitas a ouvem, muitas a chamam, para fugir, mas o que não sabem é que essa fuga as levará ao mesmo lugar, tantas vezes quantas forem necessárias, para que se questionem, sobre o seu lugar, a sua entrega, as suas certezas, o seu caminho.

Diz a lenda que ela apareceu com uma mulher-loba.

A mulher-loba, selvagem, amazona, na solidão da floresta, sentia um vazio no seu peito por se apaixonar por tudo o que se desvanecia. A paixão atravessava-a, mas não ficava, não se transformava. Certa noite, ela desejou fortemente que a paixão chegasse para que a pudesse agarrar e fazê-la permanecer, florescendo em Amor. E assim foi, a paixão chegou, ela sentiu-se crescer, crescer, crescer...sentiu-se abrir, rasgar... a sua pele caía em pedaços, o seu coração batia tanto que ela se sentia morrer, queria gritar, mas a sua voz falhava... o que aproximava o Amor da Morte estava a manifestar-se em si, mas ela não queria perder a sua liberdade, a sua identidade, não queria se dissolver e por isso chamou a sua égua para que ficasse perto de si, sempre.

Sempre que se sentisse morrer ela tinha a certeza que podia fugir e assim, as dores passavam... Um dia, ao fazer amor com o seu amado, ela sentiu tanto medo de que a dissolução estivesse perto, que chamou Epona e fugiu para as florestas...mas o seu desejo tinha sido tão forte, que Epona a trouxe de volta, vezes sem conta.

A mulher-loba acordou numa noite com a lua iluminando o seu rosto e o do seu amado e soube que era o momento. Os seus olhos cruzaram-se tão profundamente que as suas almas se tocaram, os seus corpos se fundiram num só corpo que ondulava e rebentava, abrindo-se como o oceano, os seus corações batiam num uníssono com o coração da Terra.

Nesta rendição, dois corpos sagrados resnasceram e partiram unidos para novas paragens.

Epona permaneceu. Hoje ouvem-se os seus cascos, o seu relinchar... E quando uma mulher decide fugir à entrega total em nome da sua aparente liberdade ou individualidade, ela leva-a por caminhos tortuosos e trá-la de volta, até que ela possa aprender a lição da rendição ao sagrado masculino, como mulher sagrada e completa.
 
Fotogafia: Carla Costa
Edição fotográfica: Francisca Irina Faísca
Texto: Ilda Baeza


Ela é velha, muito velha. Vive numa casa com telhados de vidro, mas não atira pedras aos dos outros.

No centro da sua cozinha tem uma grande pedra...chama-lhe lar. É nesse centro que está o fogo, o fogo de Brigid, que alimenta a alma de todos os que lá passam, para comer a sua sopa, contar e ouvir histórias, pedir os seus conselhos ou simplesmente ficar a admirar aquela fonte mágica de vida, que nunca se apaga.

Diz-se que essa velha não tem idade, todos os seus filhos e netos já partiram.

Apesar da ausência de laços familiares, ela nunca está só, mesmo quando tem a casa vazia de gente.

Dizem que à noite se transforma, que é possuída por um demónio e que corre pela casa, formando redemoinhos, elevando todos os cacos e farrapos, que com ela rodopiam, voam, caindo intactos, de volta aos seus lugares precisos...

Dizem... é o que dizem... e porque dizem, têm a sua razão!

Aquela velha muito velha de dia é luz que acalma as almas e de noite é tormento que inquieta corações.

De dia todos a amam, de noite, todas a temem.

Mas alguns, muito poucos, se atreveram a conhecer aquela velha, nas suas noites...

Numa dessas noites, uma jovem, atraída por uma voz magnificiente, que unia céu e terra, entre o mais harmonioso e mais cavernoso que já tinha ouvido na sua existência, dirigiu-se até àquela misteriosa casa.

A habitual porta tornara-se um portal de madeira imponente, lá dentro estava tudo escuro, como a noite e lá em cima todas as estrelas brilhavam, embaladas pelo Velho Crescente.

O chão era terra, pura terra, revolvida, macia e envolvente.

"Descalça-te filha." Ouviu ela. Fascinada com o que estava a presenciar, anuiu e prosseguiu descalça.

Apercebeu-se que caminhava numa floresta, quando pisou uma raiz, e ao tentar agarra-se a algo, abraçou um voluptuoso tronco.

Seguindo a voz que a tinha chamado, naquela floresta, em noite negra, chegou perto de um fogo tão belo que cruzava os céus em tons de branco, vermelho e preto. Tão intenso, tão profundo que a fez chorar. E ali, estática a uns metros do fogo, ela chorou e chorou. As suas lágrimas pareciam não ter fim, aos seus pés a água corria, como um pequeno ribeiro que procurava outras fontes para fertilizar a terra.

Quando já nada mais tinha para chorar, purificada, sentido o seu coração maior que do que si mesma, tentou aproximar-se do fogo. No entanto, algo a impedia, uma força maior, uma parede de invisível.

"Despe as tuas roupas." Novamente aquela voz...

Vacilando, questionou-se: o que estava a acontecer? Porque tinha de se despir? Começava a sentir-se desconfortável naquele local que, olhando à volta, parecia apenas um sonho sinistro... Mas uma vontade imperiosa de chegar perto daquele fogo, despiu-lhe cada peça de roupa que vestia.

Ao ficar nua, começou a sentir o calor daquele fogo mais próximo de si, tomando cada parte do seu corpo, cada recanto. Chamas rodopiavam à sua volta e dentro de si, acariciavam a sua pele em fogo e queimavam-na em êxtase por dentro. O seu corpo deixou de existir para ser fogo conectado com a Terra e com o céu. Conseguia ver e tocar as estrelas e o Velho Crescente, abraçar as raízes profundas daquelas árvores milenares.

De si fluía um néctar, com todos os tons do arco-íris. Quando tocava o chão brotavam flores, ervas e rebentos de novas árvores. Pequenos animais aproximavam-se para se deliciarem.

Aquele fogo que se estendia ao céu e à terra tornava-se cada vez mais forte e cada vez mais quente, balançava, balançava, rodopiava, dançava... era luz na escuridão e escuridão na luz... aquela luz que atormentava os seus olhos...

"Come estas papas de aveia!"

"Humm? Papas de aveia? Mas o que aconteceu? Onde estou?! Aquele fogo..."

Um profundo suspiro e um sorriso...

Era assim que acordavam, no colo daquela velha, muito velha... Na casa da Grande-Mãe... Junto do seu fogo sempre-vivo, que nutre aqueles que a visitam...de dia ou de noite...


Despejei as pedras de suposta luz que carregava
O que pensava ver, não era luz, nem sombra
Era um estado intermédio de semi-vida, semi-dor, semi-morte.

Deixei que se apagassem uma a uma
Naquele mar de intensas ondas,
Até ao estado zero.

Nua, despida do que não me define
Chego aqui ao cimo desta montanha.

O dia e a noite já não moram aqui
Nem a lua, nem as estrelas, nem o sol...
Uma Terra de nada e coisa nenhuma
Onde ser se perde em bruma
Onde querer se perde em silêncio
Onde ter se desfaz em sombra
Onde sonhar se encontra em celebração.

Engolida e mastigada por esta montanha
Desmembrada, pedaço por pedaço
Desintegrada, célula a célula
Sou NADA, Sou TUDO!

Assim me torno alimento desta Terra
Nutro os bichos e as raízes das plantas que aqui crescem
Embebedo-me desta água que me percorre.

Fico aqui...assim...em ciclo...dia após dia...
E mais um dia...E outro...

Este tempo é intemporal
As horas são dias
Os dias são horas
As horas são noites
As noites são dias

E num compasso deste tempo
A terra ferve
Começa a tremer, com o som de tambores
Algo se ergue.

Células que se reúnem
Numa nuvem de água
Brilha ao sol, um manto de partículas de ar em fogo

À sua volta forma-se um tornado que eleva a terra
Partícula a Partícula
Esta terra é absorvida por aquele manto brilhante
Tomando uma forma indefinida
Que gira e gira em torno de si mesma
Cada vez mais e mais veloz
Sempre mais veloz
Até à imobilidade da velocidade...

Na minha condição incondicional
De ser tudo e ser nada
Observo que cada elemento daquela forma
Era meu.

Agora regenerado
Agora revivificado.
E neste agora tomo consciência
De que não possuo aquele corpo
Ele É...

Aspirada para aquela forma

Uma essência que se reúne a uma matéria imaterial
Uma alma que se retrata num novo corpo...
Continuando em giro...
E giro
Constantemente
Irreverentemente
Ansiosamente.

Até que...
O Corpo pára
Mas a Alma prossegue o movimento...
Do centro da Mãe-Terra
Nasce uma Vibração
Que sobe, sobe, sobe, sobe
Rebenta nos meus pés
Inunda o meu corpo numa vibração extasiante
Leva-me a inspirar desde o meu centro,
Unido ao centro da terra
E dessas entranhas
Sobe a expiração
Selvagem
AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH

Esta é a voz da Mãe Terra
Que nos relembra
Que somos ciclo de Morte e Renascimento
Que o Corpo é o nosso Templo e o seu Templo
Que na Luz e na Sombra
SOMOS, mesmo deixando de SER.



Hoje curo-te...
Devolvo-te a inocência que outros roubaram!

Limpo o corpo que sentiste sujo
Apago os abusos que sofreste

Queimo as memórias da criança adulta
Forçada a crescer prematuramente

Devolvo à Terra a tristeza que ocuparam os teus dias
E rego-a com as lágrimas que derramaste

Hoje curo-te
E assim Amo-te!

Quero-te viva em mim...

Criança que dança descalça
Que come a fruta acabada de colher, ainda quente do sol

Criança que corre e que canta
Criança que se banha na água da chuva

Criança que acredita e sorri.
Criança das infinitas possibilidades...

Hoje curo-te
E o teu vivo e tranquilo sorriso cura-me a mim!


A minha alma, o meu coração e o meu corpo experienciam um momento de mudança.

Como em todos os momentos de mudança, existe fogo que queima o desnecessário, água que limpa as cinzas, terra que nutre as sementes e ar que impulsiona o futuro.

Estes processos são um despertar de consciência. 

Despertamos sensações perdidas no tempo, sentimos segurança nos passos, apesar de não saber onde eles nos levam ao certo.

Estes momentos, afastam e aproximam os seres que estão à nossa volta. Quando a nossa vibração se altera, também as relações se alteram: podem intensificar-se, criar-se ou quebrar-se. Faz parte do processo, embora nem sempre seja fácil aceitá-lo.

Há quem escolha criticar-nos, outros preferem simplesmente afastar-se, também há os que escolhem a via da aparência e do cinismo, mas felizmente também há os que nos apoiam, compreendem, nos dão força e acompanham a caminhada, com um grau de aceitação que não pensamos existir.

A nossa paciência também se esgota para determinadas futilidades, porque deixamos de sentir a sua utilidade. No nosso coração flui um sentimento mais puro, mais compreensivo, mais expansivo, que quer abraçar tudo e todos e agradecer esta transmutação, esta pequena transcendência.

As provocações exteriores são recebidas com Amor, e com Amor perdem o seu sentido e tudo à volta continua a fluir porque o nosso caminho não pára e ninguém o faz por nós!

Estes momentos de escolhas, parecem incertos por não vermos os resultados, não os conseguirmos quantificar, mas são os mais ricos para a nossa aprendizagem...é quando aprendemos que as decisões que tomamos devem ser feitas sem hesitação, com muita força de vontade e muito Amor pelo caminho que tomamos, largando tudo o que nos impede o de fazer.

Assim sou mudança, transformação e vontade!




Dizem que sim que sou livre...

Vejo o horizonte, apenas o horizonte e nada mais...

E caminho, passo após passo...

Caminho, caminho e mais caminho...

E o que vejo? Mais caminho...

Corro, abrando, tento ir mais longe, ficar mais perto...

E no horizonte? Apenas ele mesmo...indefinido...

Danço ao horizonte, ao caminho...

O que fica?

Apenas a essência isolada...

Porém continua a dança,

A dança que preenche o indefinido horizonte das possibilidades...

O horizonte indefinido do destino incansável!

Sem rumo, deambulando pela floresta, quase etéreo, lá te encontras.
Quase não te consigo ver pela tua fraqueza...

Sacia-te...bebe do meu sangue se quiseres, alimenta-te da minha carne se precisares, renasce das cinzas!

O fétido perfume que emanava da tua pele suavemente se torna jasmim...


A tua pele transparente ganha agora o tom da terra e os teus olhos trespassam-me a alma...

Num momento nossas veias se entrançam e nos elevam em cordas flutuantes ao centro da Terra.

Numa dança fluída nossos corpos se fundem e se tornam num só...

Um só ser de sangue que pulsa a cada bater do coração da Mãe Terra...

Retornados ao seu seio...Filhos de um mesmo ventre...filhos de uma mesma matéria ilusória que une uma mesma essência.




Porque insistes em tocar-me com as tuas garras no meu ventre? Ainda sinto as tuas mãos a apertá-lo... Retenho a respiração para suportar a dor, mas tu não estás satisfeita! Queres levar-me ao limite uma vez mais, queres que reveja o passado, repense o futuro?

Pois bem, chega...Leva-me se é isso que queres!

Já nada tenho a perder.

Despojo-me de tudo e parto se esse for o meu destino.

Corta-me em pedaços, dá-me como petisco aos abutres e enterra meus ossos na terra.

Leva a minha alma ao Vale dos Mortos e dá-lhe o Sopro Final.

Qual é o teu medo no meu fim? Porque não consegues terminar?

Gostas apenas de me ver contorcer de dor? Agarrada às entranhas que me queres devorar?

Vou permanecer quieta...serena...e se tiveres coragem...Leva-me porque estou pronta e despojada do meu corpo...


A noite cai como uma gota de orvalho
Ao seu som o meu corpo sente uma cadência que vai seguindo
Move-se como um rio que procura o mar
Serpenteia no seu caudal, cai em cascata dos penhascos...

Corre, Corre, Corre
Corre até uma Foz inalcansável....
Finalmente chega e em êxtase
O seu movimento eleva-se em ondas de emoção
Numa tormentuosa busca da Terra, sua amada

E busca, busca, busca
Busca e não a encontra
Sua amante Lua o puxa, para cima e para baixo
Conforme seu ciclo incita
Como se de uma marioneta se tratasse...

Ela conta uma história...
A história do seu Sol, que busca em círculos e não encontra.

E todos dançam, todos acompanham a cadência
Dia a após noite
Noite após dia
Uma dança à Infinita Alquimia do Ser.

Na profunda escuridão da morte pedi-te que me levasses
Que me deixasses abandonada nesse frio terror da noite sem fim
Voei por vales e montanhas de sonhos despedaçados, de entregas rasgadas em bocados pelas ilusões.



Enterrei-me no sepulcro da raiz cinzenta
Chorei...chorei...chorei...
Os meus olhos não tinham água, mas sim um sangue negro que inundava aquela terra e a transformava num vermelho fogo
E tudo ardia à minha volta, o calor deste inferno secou as minhas lágrimas, destruiu o meu finito ser
Senti dilacerar-me a pele
Derreter os meus órgãos
Consumir os meus ossos.


Nada ficou...E eu assisti a tudo, à primeira vista, em pânico e sem perceber.
Até que quando me vi consumida, destruída, extinta, soube: Eu já não existia!


O ar levou as cinzas que restaram e senti um manto de água que me aconchegava e refrescava...


Senti chegar-me a casa, pisar o frio granito de uma nova morada, deixar o rasto líquido de uma água que purificava aquele caminho.
Outros me esperavam, em círculo, de mãos dadas...aguardavam que eu fechasse aquele momento de renovação.
Os mantos de água caíram e à nossa volta uma cascata se levantou, ao centro a terra se abriu...

Assim começou a Jornada...

A cada transformação, o que é fútil e desnecessário, que nos prende a uma existência sem significado será eternamente apagado quando decidimos descer um pouco mais ao fundo da nossa alma.

Who am I?

A minha foto
Desde cedo, começou por explorar práticas espirituais que a ligam directamente à Natureza, aos ciclos da Terra e ao Sagrado Feminino. Apaixonada por todas as formas de expressão criativa, começou o seu trajecto na escrita criativa, artes plásticas, desenho e pintura. Criou e participou em diversos blogs de escrita poética, investigação e espiritualidade. Desenvolveu a sua formação académica na área da Comunicação e participou em várias formações de Dança Contemporânea, Consciência Corporal, Teatro, Escrita Criativa e Artes Plásticas. Actualmente estuda Movimento Oriental. Em 2007 foi a fundadora do conceito ArtingLuna, através do qual expressa a sua linha de artesanato, em acessórios de tecido, incensos rituais, cabazes gourmet, entre outros. O conceito ArtingLuna é também a base pela qual tem desenvolvido a conexão terapêutica da Arte com a Espiritualidade, através de vários ateliers, workshops, encontros e círculos.

Um história para todos...

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